Ponto do Caboclo Roxo

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

RIO - "A GUERRA DO MATO"

"O que fora no começo do século (XVII) um simples refúgio de escravos era agora um conjunto de populosas e florescentes comunidades espalhadas por um território de selva (...) Quase todas ficavam em lugares montanhosos e iminentes às principais vilas da capitania" [em Freitas, D., op cit. pg 71] 
O Rio precisa que as florestas urbanas se multipliquem, afim de evitar catástrofes ambientais. Mas ao invés de criarmos políticas públicas que promovam a cultura florestal que nos legou o fenômeno Floresta da Tijuca - pioneiro e único no mundo em suas dimensões - vemos esse mesmo espaço abrigar um recrudescimento de antigos problemas sociais. Em São Conrado, as trilhas se abrem, sobretudo, para a circulação de bandos armados; a floresta é, antes de mais nada, um observatório da movimentação policial e um espaço livre para a prática de violências. Gostaria de ver meninos da Rocinha tornarem-se reflorestadores, conscientes da importância da Mata Atlântica e capacitados para conviver com Ela de modo pacífico, economicamente viável e "dentro da lei". Todavia, vejo reinar o medo na Estrada da Gávea Pequena, nas Canoas e no Alto da Boa Vista... onde as maiores vítimas da nossa "guerra do mato" foram os moradores de classe média alta, "expulsos" de suas belas moradias por constantes "hordas" de "bandidos selvagens", que conhecem a floresta como a palma de suas mãos.

Eu mesma, com toda minha "pretinhosidade" pró-floresta, sai corrida de uma bucólica casinha no Caminho do Córrego Alegre (ao lado da residência oficial do Prefeito), em dezembro de 2007, após um assaltante colocar uma arma no meu nariz, bem ali na sala de casa. Segundo informaram meus vizinhos, aquele mesmo homem fizera roubos naquela mesma rua, em 2005, e retornaria em 2009 para novas incursões sobre o patrimônio alheio. Devemos supor uma conivência das autoridades, ou concluir que a sociedade hegemônica euro-brasileira simplesmente tem um desprezo ancestral pela floresta, considerando que só plantações de soja transgênica, asfalto e concreto é que tem valor? Esta seria uma resposta maniqueísta e uma grosseira simplificação, afinal, Pedro II e José Bonifácio eram luso-brasileiros e percebiam na floresta tropical seus valores estéticos e geo-políticos. Igualmente burra é a tenaz perseguição aos cultos afro-ameríndios "pagãos", que precisam de áreas florestadas para sua liturgia e que tanto podem nos ensinar sobre Elas.

Não tenho respostas; só tenho perguntas... Vou seguir de olho no noticiário, que está fazendo fever todas essas idéias na minha mente. Me dói muito ver as imagens dos traficantes fugindo pelo mato como animais. Não consigo deixar de pensar nos meus antepassados que (com certeza) foram escravos fujões e totalmente contrários à lei colonial. Porém, o que me mobiliza é a certeza de que essa criminalização da nossa herança quilombola tem que acabar. Espero, de coração, que os traficantes do Cruzeiro e do Alemão não consigam se estabelecer na Rocinha, nem em nehuma outra comunidade próxima à minha amada Floresta da Tijuca. Encerro esta reflexão com mais um trecho da obra de Décio de Freitas sobre as táticas dos guerreiros de Palmares. Semelhanças com o comportamento das quadrilhas cariocas talvez não sejam meras coincidências.
"Não temiam que os buscássemos nestes seus alojamentos (...) por ser muito coberta a campanha e eles tão destros nela que, metendo-se pelos matos, e sustentando-se de animais e frutos silvestres, tão fácil lhes era largar uma das aldeias quando os buscávamos, como ocupá-las outra vez, quando as largávamos." [Frei Loreto Couto, em Freitas, D., op cit. pg 85]  
"Última singularidade da tática palmarina: raramente aceitavam combate, mantendo quando muito encontros rápidos e desconcertantes seguidos de fugas para o mato." [idem]